A corrida de Spa foi decidida no box, mas o dado que importa é o ritmo do Leclerc

O Antonelli venceu em Spa e abriu 45 pontos no campeonato. Só que o placar não conta o que aconteceu no meio da prova. Fui atrás dos tempos volta a volta e das janelas de SCV pra entender por que o Leclerc ficou na frente por doze voltas e por que a retomada da liderança levou tanto tempo pra acontecer.

A largada foi o momento mais movimentado do dia e durou menos do que parece. O Antonelli saiu da pole, o Verstappen largou em segundo e passou na saída. Ficou na frente por treze segundos e meio. Aos vinte segundos de corrida o Antonelli já tinha devolvido, e quatro segundos depois disso o Leclerc ainda tirou o Verstappen do segundo lugar. O Red Bull tinha o pique da largada e não tinha o ritmo pra sustentar, o que se confirmou no resto da prova. O Verstappen terminou em terceiro, a 11,6s.

Na mesma volta 1 veio a batida entre Hamilton e Russell. O Russell não completou uma volta sequer e ficou com zero volta na súmula. O Hamilton levou cinco segundos de punição por causar a colisão e cumpriu na volta 22. O safety car ficou até a volta 4.

Daí até a volta 17 a corrida foi um treino longo. O Antonelli abriu 3,5s em cima do Leclerc, tirando em média 0,209s por volta. Nesse trecho o desenho era de vitória tranquila.

A diferença acumulada entre os dois primeiros. O mergulho entre as voltas 18 e 21 é a janela de paradas, e é ali que a corrida muda de dono.

Aí vieram dois SC virtuais em três voltas, e é aqui que a corrida virou. A primeira entrou na volta 18 e durou trinta e três segundos. A segunda entrou na volta 20 e durou noventa e quatro segundos.

O Antonelli parou na volta 18, quarenta e nove segundos depois da primeira virtual ter acabado. Pagou o preço integral de uma parada com a pista em ritmo normal, 2,6s de carro parado mais o percurso do pit lane. O Leclerc esticou duas voltas e parou na volta 20, com a segunda virtual ainda ativa, quando todo mundo na pista estava obrigado a andar devagar. Foram 2,3s de carro parado, mas o que interessa é o resto. Ele perdeu muito menos tempo em relação ao pelotão porque o pelotão também estava lento.

O resultado é direto. Antes das paradas o Antonelli estava 3,5s na frente. Depois delas, o Leclerc estava 2,57s na frente. Um swing de seis segundos que não veio de ultrapassagem nenhuma. O Verstappen, que tinha parado antes de tudo na volta 17, ficou fora dessa conta e caiu pra terceiro.

O Hamilton parou na mesma volta 20 do Leclerc e foi o caso mais caro do dia. Foram 10,6s de carro parado contra 2,3s da Ferrari do companheiro na mesma janela. O que aconteceu ali é que o carro foi liberado enquanto um mecânico entrava na frente da roda dianteira direita pra mexer na asa. O mecânico foi atingido e caiu, e não se machucou. A comissão investigou depois da corrida e entendeu que o piloto não teve culpa, porque ele percebeu e parou o carro na hora. Não houve punição esportiva. A Ferrari foi multada em 30 mil euros, sendo 10 mil suspensos por doze meses, e ficou de mandar um relatório de protocolo pra FIA. A equipe admitiu instrução tardia pro ajuste de asa e falha de comunicação. O Hamilton terminou em quarto, a 17,2s.

Tempo de volta dos três primeiros no stint final, todos no pneu duro. A linha vertical marca a volta 34, quando o Antonelli retomou a ponta.

Agora o dado que mais me chamou atenção. O Leclerc segurou a liderança da volta 21 até a 33, treze voltas, e o Antonelli só passou na volta 34. Isso já é muito tempo pra um carro que era meio segundo mais rápido na classificação. Mas o que interessa mesmo é o que aconteceu depois.

Separei a corrida em três janelas e tirei a média de quanto o Antonelli ganhava por volta em cima do Leclerc, descartando as voltas de neutralização e de box. Nas voltas 6 a 17, antes das paradas, 0,209s por volta. Nas voltas 22 a 33, com o Leclerc na frente, 0,159s. Nas voltas 35 a 44, já com o Antonelli na ponta, 0,123s.

A vantagem média do Antonelli por volta em cada trecho da corrida. Ela existe do começo ao fim, mas encolhe pela metade.

A vantagem nunca desapareceu, e é por isso que o resultado não é surpresa. Mas ela caiu quase pela metade entre o começo e o fim. Depois de retomar a liderança na volta 34, o Antonelli abriu 1,2s em onze voltas e cruzou a linha 1,952s na frente. Pra comparação, no primeiro stint ele tinha aberto 2,5s em doze voltas com o Leclerc atrás. A melhor volta de cada um também ficou perto, 1:49,1 contra 1:49,3.

Ou seja, a Ferrari não ficou na frente só por causa da virtual. A virtual deu a posição, e o ritmo do carro segurou a posição por treze voltas. São duas coisas diferentes e a conta de cada uma dá pra separar.

O Hadjar no stint final contra os dois primeiros. Ele largou em 21º e andou na mesma faixa de tempo dos líderes.

Atrás, duas corridas que valem registro. O Hadjar largou em vigésimo primeiro, parou na volta 1, parou de novo na volta 2 e ainda parou uma terceira vez na volta 20. Terminou em sexto, a 23,3s do vencedor. A melhor volta dele foi 1:49,3, a terceira mais rápida da corrida, praticamente colada na do Antonelli. Três paradas e ritmo de ponta no mesmo domingo é uma combinação que quase não aparece.

A volta mais rápida da corrida, aliás, não foi de nenhum dos que brigaram na frente. Foi do Norris, 1:48,9. Ele largou em décimo terceiro, fez uma parada só, na volta 30, e trocou o duro pelo médio pro final. Terminou em sétimo, a 0,7s do Hadjar.

O Bortoleto largou em oitavo e terminou em oitavo, a 49,1s. Não teve nada de espetacular na corrida dele e é exatamente esse o ponto. Segurou a posição a corrida inteira com um carro que não era o oitavo mais rápido da pista e levou quatro pontos pra Audi.

Ainda ficou um incidente entre Leclerc e Piastri na volta 9, notado pela direção de prova e arquivado sem ação na volta 16. O Piastri terminou em quinto.

No campeonato o Antonelli vai a 204 pontos. O Hamilton, com o quarto lugar, voltou pra vice-liderança com 159 e passou o Russell, que ficou parado em 154 depois do abandono. O Leclerc é o quarto com 126.

O Antonelli ganhou a corrida que já estava ganhando na volta 17. Só teve que ganhar duas vezes.

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