O sábado começou com o Antonelli vencendo a sprint com 2,7s pro Hamilton e o Norris completando o pódio a 9,7. O dado que resume a prova curta é que a volta mais rápida dele veio na última volta, 1:31,6, com pneu no fim da vida. Enquanto o resto administrava, ele ainda tinha carro pra atacar. E o ritmo dos quatro da frente já contava a história que se repetiria à tarde, Mercedes estável e Ferrari oscilando.

Na classificação, fui olhar a telemetria da volta da pole e comparei com Leclerc, Hamilton e Russell. O que mais chama atenção são os pedais. O Antonelli fez a volta inteira com 7 acionamentos de freio, contra 9 do Leclerc e 8 do Hamilton. Em pelo menos duas curvas onde a Ferrari precisa do freio, ele passa só aliviando o acelerador e deixando o carro rolar. Freio a menos é velocidade de curva a mais, e aparece direto no cronômetro. O pedal direito conta a mesma história, cravado em 100% durante 65% da volta, e quando não tá em 100% quase nunca tá em zero, ele modula no meio do curso. É pilotagem de quem confia na dianteira do carro.
O Russell fez igual, 7 frenagens e 63% da volta em acelerador cheio. Ou seja, não é talento isolado do garoto, é característica do carro, que tem estabilidade de sobra nas curvas de alta e permite passar sem freio onde a Ferrari precisa tocar. A diferença entre os dois da Mercedes apareceu em outro lugar. O Antonelli melhorou em toda tentativa da sessão, 1:29,7, 1:29,0, 1:28,5, 1:28,4 e 1:28,1, e cravou quando mais precisava. O Russell não melhorou na última tentativa e ficou com o pior setor final dos quatro.

Nas marchas se repete o padrão da sprint. O Antonelli rodou só 5% da volta em 8ª, um trecho de 4 segundos onde fez a vmax de 317, contra 23% do Leclerc e do Hamilton. A Mercedes roda com a 7ª mais longa e segura o V6 entre 10.800 e 12.200 giros nas retas, na janela de potência máxima do combustão. O Hamilton chegou a girar mais alto, pico de 12.598, e mesmo assim ficou a 0,347. Volta construída na curva e na gestão, não na reta.
E teve o detalhe que a transmissão mostrou e fui conferir. Os dois carros da Mercedes tiram o pé do acelerador pouco antes da linha de chegada na volta lançada. O Antonelli cai de 253 pra 241 km/h e o Russell de 247 pra 230, enquanto Leclerc e Hamilton cruzam com pedal em 100%. Não é erro, é regulamento. Em 2026 o sistema elétrico é obrigado a reduzir a potência gradualmente no fim da volta rápida, 50kW por segundo, então todo mundo cruza a linha com a parte elétrica murchando. Mas se o piloto alivia o pedal, essa redução é dispensada. O piloto da Mercedes solta o acelerador por meio segundo, pisa de novo, e o sistema entrega a potência elétrica cheia até a linha. Perde um tiquinho no lift, ganha mais no boost.

A FIA já tinha barrado um truque parecido da equipe no Japão, e esse novo já tá dando conversa no paddock. No fim, com metade da potência do carro vindo de bateria, classificação virou tanto prova de pilotagem quanto de software.