Choveu antes da largada e o último GP de Zandvoort começou com a pista úmida fora da linha seca. Setenta e duas voltas depois, o Norris cruzou com 11,5s de folga sobre o Antonelli, segunda vitória seguida dele. No meio disso teve bandeira vermelha, três líderes, ordem de equipe e uma decisão de pneu que definiu tudo. A telemetria conta cada pedaço.
O Verstappen durou duas voltas em casa. Pisou com uma roda na linha branca da reta, perdeu a traseira e bateu forte. Saiu bem do carro, e a bandeira vermelha mudou a corrida inteira, porque parada de bandeira é troca de pneu de graça. O Norris apostou no macio pra relargada. A Mercedes segurou o médio usado. O Piastri foi de duro.
Antes disso o Kimi já tinha feito o primeiro lance da corrida. Na largada ele passou o Russell com reação 0,3s mais rápida e mais velocidade de curva, 97 km/h de mínima na curva 1 contra 91. Os dois frearam no mesmo instante. O lance não foi freada, foi arrancada e apoio.
Na relargada em pé foi diferente. A arrancada dos dois primeiros foi idêntica, e a liderança mudou de dono na freada. O Kimi freou 0,4s mais tarde que o Norris, ainda vinha a 222 km/h no instante em que o rival já tinha caído pra 194, e tomou a ponta que seguraria por 46 voltas.

O macio do Norris pagou a aposta rápido. Na volta 16 ele avisou no rádio que não tinha mais nada. Os dois pararam juntos por volta da 21, e aí veio o trecho que mede os dois carros de verdade. Com duros da mesma idade, das voltas 25 a 38, o Norris fez 76,440 de média e o Kimi 76,486. Empate técnico. A corrida não seria decidida em ritmo puro.
Foi decidida no box, e o detalhe que só apareceu na segunda é que nem a McLaren tinha planejado assim. No relatório de corrida da própria equipe está escrito que o undercut estava marcado pra volta 40. O Antonelli parou nessa mesma janela, na 41, e cobriu a jogada antes que ela acontecesse. É o movimento certo, é o que qualquer equipe faz liderando com um rival grudado atrás. Só que aí a McLaren rasgou o próprio plano e deixou o Norris na pista por mais sete voltas.

Quando ele finalmente parou, voltou cerca de cinco segundos atrás. Parece prejuízo e não era. Eram cinco segundos de dívida contra sete voltas de crédito no pneu, e o câmbio entre uma coisa e outra dá pra medir.

Entre a volta 49 e a 52 o Norris fez 74,660 de média contra 75,787 do Antonelli. Mais de um segundo por volta na mesma dupla que, vinte voltas antes, estava separada por quarenta e seis milésimos. Foram três voltas seguidas abaixo de 1:15, e os cinco segundos sumiram em quatro.


A ultrapassagem veio na volta 52 e o car_data registra a cena. O Norris chegou a 336 km/h no fim da reta contra 324 e freou depois. E tem o detalhe que muda a leitura. O Kimi estava a menos de um segundo do Hamilton à frente e por isso tinha o Overtake Mode disponível. Não bastou. Sábado o Leclerc tinha feito exatamente isso com o Norris na sprint, 349 contra 317. Domingo o Norris devolveu no Kimi, com pneu sete voltas mais novo no lugar da bateria.
O fim foi um xadrez de borracha. No VSC do Ocon, o Kimi trocou pra macio e saiu atrás do Russell. Na volta 65, a Mercedes mandou inverter, e o Russell reclamou no rádio antes de abrir caminho. Só que abrir caminho custou caro. Ao aliviar pra deixar o Kimi passar, ele entregou quase dois segundos de uma vez. E quem vinha atrás, de macio novo, era o Hamilton.

Dali em diante o gap nunca mais passou de 1,1s. O Russell defendia de duro com mais de trinta voltas, sendo o mais lento do grupo da frente, e o Hamilton rondava com o pneu mais novo do pelotão. Um segundo VSC pausou o ataque a três voltas do fim, e na largada da última volta eram 0,37s. O bote nunca veio.

A conta do campeonato fecha assim. Antonelli 242, com 59 de folga. Russell e Hamilton empatados em 183. Norris em 159, com duas vitórias seguidas e a sensação de que a McLaren achou em Zandvoort alguma coisa que não tinha na sexta de manhã.
Zandvoort sai do calendário com a corrida que merecia. E fica o registro de que cobrir um undercut é o movimento certo. Só que, ao parar pra se proteger, a Mercedes definiu o momento da parada do rival e entregou sete voltas de pneu. Nem toda decisão errada parece errada na hora.